segunda-feira, 14 de julho de 2008

A VIDA É REAL E DE VIÉS (Caetano Veloso, O quereres)

(por Malu)


Assim a vida se forma, assim os vínculos surgem: das palavras, dos sentidos, de um lugar qualquer do mundo onde dois seres com alma e pele dialogam, silenciam, sorriem, amarram a cara, soltam os seus desejos, anseios e sei lá mais o que (mistérios sempre hão de pintar por ai, disse Gilberto Gil uma vez e já faz tanto tempo...).

Queremos tudo na medida certa (?), no tempo e ritmo desejável, cartesianamente como deve ser. Talvez com o equilíbrio e a ordem da natureza que se altera quando o humano desumano ignora a natural organização do universo.

Mas ela, altiva, aventureira, traquina de certo modo, e é da vida que falo, não segue o caminho que queremos. Ela quer o caos do erro, o desencontro. Criar e distribuir mistérios, nos fazer chorar e rir às vezes ao mesmo tempo (é o namoro singular dos olhos com a boca) demonstrando, insistindo e repetindo que este jeito e modo de querer conviver com ela que aprendemos desde a infância, não é bem assim... Ela é rebelde sim, ela quer que percebamos a ambigüidade, a insegurança e que o “sempre está por um triz” e como nessa percepção, o sentir pode ser puro e verdadeiro e o desejo selvagem e apaziguante. Difícil é essa convivência com o efêmero!

Brincar com as palavras e escreve-las para expressas coisas já tão bem ditas por tantos escritores, é novidade para cada um no seu solitário momento de dialogo com as palavras. È o encontro com suas matrizes de aprendizagem, seu jeito de ser e estar no mundo. E ai o mesmo assunto tem tantas e múltiplas formas de escrita como esta minha agora, que quando estiver no blog diante de tantos olhares e percepções terá variadas leituras, pois todos somos, também, autores do texto que lemos.

A escrita como a vida, nos leva muitas vezes para caminhos que não escolhemos. Iniciei esse texto com uma reflexão sobre nossa incapacidade de lidar com as incertezas da vida e me vejo agora querendo concluir o texto sem conseguir. Mas posso pensar que vcs blogueiros de plantão vão continuar de onde deixo e transformar esse texto numa escrita plural e de muitas identidades.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Sobretudo Infinito ( para Cris Motta Leal )

por Magneto
Meu coração atormentado
Pediu abrigo.
Onde conseguiria tamanho acolhimento?
Fora de perigo,
Quando a generosidade já fazia o tempo
O espaço era o que menos importava.

O acaso mais preciso fez você perto de mim
E a sua mão, e o seu ombro, a sua voz.
Um avanço cármico me tocou profundo
Movimentou meio mundo e me fez sorrir.

Não és um porto seguro, uma cais, um farol.
Não há símbolo, nem linguagem propícia para te vender.
Tampouco o seu amor se acha em prateleira
É mesmo pensar besteira querer-te só por querer.

Minha gratidão é um trem
Em rota de colisão
Paralelos no infinito
Vórtice em outra dimensão.

O mero mortal confuso
Agora apaga grafites descontentes
Sente-se imerso e ocupa-se na noite insone,
Vigiando o seu nome, em algum templo da cidade.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Mulheres Nossas de Todo o Dia

por Malu

Março, é o mês da mulher e felizmente ao contrario dos outros dias que homenageiam mães, pais, avós, namorados, ainda não foi objeto de atração do comércio.Apenas agradecimentos das empresas que produzem e vendem para nós mulheres, pela nossa fidelidade aos produtos que nos tornam mais belas, mais jovens,mais inteligentes, mais louras, mais magras, mais isso mais aquilo e mais mais.Alguns, inteligentes e com um conselho que pode impedir uma comum discussão entre homem e mulher foi publicado no dia 8 de março no jornal Folha de São Paulo “Se a sua mulher perguntar que dia é hoje, não responda sábado, lhe dê parabéns”.O produto? Nova skin.Considerando as propagandas de cerveja sempre tão machistas em que o corpo feminino meio que se confunde com a marca que está sendo anunciada , é surpreendente o feeling desse anuncio captando o propalado esquecimento masculino de datas quaisquer que sejam, as vezes até a do próprio aniversário..E acredito que muitos homens tendo lido o anuncio ante devem ter feito uma senhora média com a parceira e desfrutado de um dia harmonioso. .

Diante de noticias, programação especial da TV aberta e a cabo em nossa homenagem a reflexão sobre as mudanças do papel da mulher em nossa sociedade é quase natural.É indiscutível a coragem feminina em desfrutar de todos os desafios que se foi colocando à sua frente , acertando aqui, errando ali, caindo, levantando e com uma determinação e ousadia nem sempre reconhecidas.

Falo de um contingente enorme de mulheres que são provedoras que cuidam dos filhos seus, dos outros e vão sobrevivendo ainda com esperança de melhorar e chegar ao patamar de viver com as necessidades básicas satisfeitas.

Claro, que tem aquele grupo da classe media e classe média alta que se sentem iguais aos homens na ambição de conquistar um parceiro com um maior saldo bancário, um carro de luxo e a possibilidade da traição fazer parte do jogo amoroso...são faces, outras, das transformações do papel feminino.

Gosto de ser mulher , a humanidade que habita em nós cultivada pela maternidade, pelo natural instinto de cuidar do outro faz a diferença no mundo do trabalho singulariza a relação nas organizações,tira do esquecimento valores como respeito, dignidade, amorosidade e por ai vai.

Vale a pergunta? Como estão os homens diante dessa mulher que mudou tanto e tão velozmente? Quem é essa estrangeira ? Como lidar com ela? E nós estamos mais próximas ou mais distantes desse homem? É a busca de sempre, mais eterna que moderna....Mas sempre instigante e sedutora.

O que será que será ?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Up Outsider

por Magneto

A muitos importa mesmo saber sobre os segredos do coração. São desde os mais curiosos e poéticos até os infames e patéticos indivíduos que dissertam sobre as suas constrições e alterações de ritmo. Alguns passam longos períodos sem se dar conta da sua existência, da sua importância, até que um dia ele: puf! - apaga.

Gosto de correr, estreitar a freqüência, alongar e contrair as fibras, produzir endorfinas e ficar feliz. É um vício, é a minha droga. O meu músculo cardíaco é forte e preparado, é o que eu penso e sinto. O condicionamento é a base e assim também se firma como uma grande questão vital: estar condicionado à. A crase é pertinente, pois o objeto em questão é do gênero feminino. Devo apenas tangenciar o assunto, para não dar ousadia, não dar muita trela.

É sabido que um membro amputado do corpo humano permanece existindo virtualmente, por algum tempo, na mente da vítima. A sensação é impressionante, assim atestam os relatos. Pois bem, numa relação de dependência afetiva, consoante ou não, mas essencialmente condicionada, qualquer ruptura, sobretudo se abrupta, deixa seqüelas que beiram o insuportável. Chico Buarque de Holanda escreveu com muita propriedade:

“ó pedaço de mim
ó metade amputada de mim
leva o que há de ti
que a saudade dói latejada
é assim como uma fisgada num membro que já perdi”.

Construir relações de dependência afetiva é mesmo necessário? Não falo daquelas que existem por imposição do genoma. Amo as minhas duas filhas e os meus irmãos. Tenho a convicção de que eles me amam intensamente, embora eu já os veja muito pouco. Eles moram no meu coração forte. Este mesmo fora golpeado em eventos distintos, relacionados à perda por morte de parentes e entes queridos. É a experiência comum, é a sina, é parte da vida.

Repito a questão sendo mais objetivo, contudo, enfatizando que, sem querer dar muita “asa”, liberdade, vez: é necessário mesmo ter um grande amor? Monogamia... sei não. Parece ferir o holístico, o monismo. Se um da relação perceber o grau de dependência do outro, pode, se assim desejar, esmagar-lhe a auto-estima, pô-lo diante do abismo, exaurir-lhe a alma, arrancar-lhe o couro. Passei pela experiência, pela dolorosa experiência e não vou usar a expressão mais chula para qualificar a dor.

Não me encaixo. Admito que perdi. mas agora estou feliz. Sou um up outsider!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O Segredo

por Magneto

No ano passado, há apenas alguns meses atrás, fui instigado a conhecer o que seria uma grande revelação. A sinopse já indicava um milagroso remédio, a fórmula do sucesso, a receita para a felicidade. Não obstante tudo tenha sido visto às escuras numa sala de projeção, em sessão gratuita, foi oportuno garantir a sesta antes de voltar ao trabalho. Não cochilei, verdade seja dita. A expectativa de um desfecho mais contundente sobre tudo aquilo que se desenhara a respeito da idéia de materialização do desejo, com base na física quântica e com exemplos de bem sucedidos casos de celebridades mundiais, deixaram-me aceso.

Ao final da exibição, enquanto a sala se esvaecia, os comentários já eram difusos e contraditórios. Quantos olhares esperançosos denotavam satisfação e quanta ironia traduzida em intermitentes gargalhadas, pude perceber. Fiquei em cima do muro, tamanha a necessidade de justificar a mim mesmo por que não estou na lista dos “dez mais” da Forbes.

2007 foi o ano letárgico, o tempo perdido. Dizem que aprendemos com os próprios erros, eu concordo, embora a dificuldade tenha sido encontrá-los nesse período. Foi tudo certinho, arrumadinho e medíocre. Aí talvez resida a questão. Se estás aninhado com interesses de outrem e permanece à sombra destes, não sairás das trevas meu caro. Por outro lado, se visas alçar o vôo, esquece daquele que te usa. Se somos fiéis à palavra, temos um diferencial, de lato, em relação aos outros animais. Os pactos são firmados sob interesses mútuos. Aqueles que se prevalecem de decisões unilaterais são os mais fortes.

É invariavelmente desejado aquilo que está oculto, quem cochicha o rabo espicha e, cobiçar é pecado. Então, só vou te contar um segredo. Um não, dois: usar todos os sentidos, deletar todas as superstições e suposições, incluindo o passado e o futuro.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Forte de Santo Antônio Além do Carmo - Memória do Lugar

por Malu

Circunstancias profissionais levaram-me a repetir um trajeto que há muitos anos tinha feito em situação inusitada e desconfortável , embora muito freqüente á época.

Anos setenta, mais exatamente 1974, 13 de março ,Auditoria Militar em São Joaquim, encerra um julgamento que durou 14 horas e condenou à prisão 16 militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB).Anos duros, mas já com a abertura gradual do governo do general Ernesto Geisel

Ao deixa a auditoria fomos conduzidos ao Forte Santo Antonio,na época penitenciária masculina e feminina .Sombrio, escuro com guardas de presídio que á primeira vista e momento nos assustavam e atemorizavam.Ali, numa sala com grades mantida como cela improvisada passei uma noite inesperada no chão sem lençol que meu otimismo em acreditar que não seria condenada não me deixou trazer de casa, como fizeram meus companheiros de partido e agora de prisão.

No Forte Santo Antonio vivi 15 meses numa convivência pacifica e restrita com assassinos,(a), homicidas, traficantes e usuários de drogas sob o comando de um diretor que nos tratava com dignidade e respeito, coisa rara nos anos da ditadura.

Não foi dos piores momentos de minha vida , outro viveria, mas a prisão ao lhe isolar da convivência com a sociedade lhe devolve para dentro de vc, lhe incita á reflexão, sobre os fatos , os sentidos e as sensações que a situação lhe evoca.

Todo esse flashback passou ,como numa tela de cinema, ao entrar em 2007 no Forte Santo Antônio hoje recuperado na sua arquitetura original com a utilização de materiais modernos e arrojados que salienta a beleza do projeto e do cenário - o bucólico e calmo largo de Santo Antonio e a exuberante da Baia de Todos os Santos.

Voltar em circunstâncias tão distintas e com o espaço sendo utilizado por grupos e academias de capoeira me fez pensa que o tempo não para e o forte segue também a sua trajetória que merece ser inventariada para reconstruir uma memória que assegure o conhecimento da sua história para os que não viveram e nem eram nascidos na década de 70.

Presentemente transformado num equipamento cultural , sob a responsabilidade da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia /IPAC, o Forte de Santo Antonio é um equipamento que pode abrigar projetos de natureza social e cultural e espetáculos de música e artes cênicas possibilitando parcerias estratégicas com a iniciativa privada e organismos internacionais.

Vejo também como fundamental dar visibilidade aos registros existentes sobre a história do Forte,inclusive a mais recente,de abrigo para presos políticos, de modo a se ter uma real dimensão do que se passou neste espaço. Seria muito interessante, inclusive se dispor de depoimentos dos ex-presos políticos sobre o período e a permanência nas dependências do Forte tornando mais presente e vivo um passado que muitos teimam em deixar morrer.

De todo modo o Forte permanece hoje com suas antigas celas sendo utilizadas por academias de capoeira em que mestres com Nenel, Curió, João Pequeno, Moraes, dão aulas e jogam capoeira.

Foi uma grande alegria voltando ao Forte, perceber que um espaço antes de reclusão e exclusão limitado a conversas restritas e vigiadas e vistorias desconfortáveis e constrangedoras, constitui-se num lugar em que se aprende uma das maiores manifestações populares do Brasil , a capoeira, que permite numa simples roda, a escuta da musica, o movimento do corpo , o som do berimbau num espaço que não impõe limites e em que todos podem jogar, cantar e se incluírem.

Considerando que todo conhecimento é apenas memória, vai por esse caminho e pensamento de Platão a necessidade de guardar e manter a memória do lugar que conformou parte da nossa identidade e da nossa história.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Tempo, Tempo, Tempo ...

Por Malu

O que uma viagem voltando para Salvador , por ferry, evoca em nós?

Retornava de um encontro com agricultores onde falavam da importância da cultura em suas vidas e, vendo e respirando o manguezal que circunda Bom Despacho, escrevi algumas palavras saídas, sem vontade de se fazer texto, mas corporificando uma memória de quando adolescente ainda. Voltava da ilha e o cheiro do mar, o sal nos meus cabelos e a brisa me fizeram descobrir o que o meu corpo podia me oferecer de prazer sensorial. E foi só uma mecha de cabelo molhado em meu rosto, o arrepio trazido pelo vento na pele queimada para descobrir a sensualidade do corpo e da natureza em nós.

Tudo voltou, na viagem de agora já distante no tempo; como se a mesma paisagem, o cheiro de maresia e a quietude do mar me fizessem reviver e perceber o que senti numa tarde de domingo, ainda forte na minha memória.

Repete-se agora a mesma sensação: meu olhar parado no matiz de diversos tons do azul do céu, nas formas das nuvens que nos lembram ser azul o nosso planeta.Tudo se torna- visível para mim e é como se comêssemos a beleza do cenário com as sensações que nos desperta.
É um momento de encontro com a natureza ,de lê-la num click e tudo se funde num só movimento que nos acolhe fazendo pensar que perceber a natureza pode não nos deixar tão sozinhos na multidão.

Acredito que exercitar e perceber os nossos sentidos abre portas e janelas para descoberta inimagináveis sobre a nossa humanidade e a do outro e de certo modo nos torna generosos com o sentir e a percepção de quem está próximo a nós.
Conclusão? Talvez a de que o desenvolvimento da percepção e dos sentidos é uma chance enorme de pensar que aprofundar o entendimento sobre a nossa subjetividade nos torna mais seguros sobre uma tantas coisas, mais inseguros sobre outras, mas com a razoável certeza de que a nossa humanidade cresce .